DOIS HOMENS QUE ADOTARAM
NOSSA TERRA
O CALCETEIRO ENÉAS PEDROSO E MIGUEL
LOPES – O “ENTERRADO VIVO”
Pessoas vindas de outros lugares, aqui viveram para o
resto de suas existências e nunca mais sairam das
plagas dos palmares. Entre tantos, destaco o calceteiro
Enéas Pedroso que foi trazido pelo prefeito municipal
João Dêntice, quando um grave movimento tomou
conta de todos os nossos conterrâneos ou seja, a luta
para que o calçamento das ruas se tornasse uma realidade.
Era o barro durante as chuvas e a terrível poeira
nos momentos de seca, que no entanto, demonstrava o deleite
da gurizada que aproveitava a precária situação
de nossas vias para brincar de carrinho, empurrar a rodinha
com um arame, fazer castelos de areia ou construir cidades
em miniatura, inclusive, se fosse verão, iluminá-las
com pequenos vidrinhos e mais tarde, os da milagrosa pinicilina
, aprisionando os infelizes vaga-lumes ou mais do que isso,
fazer pequenos lagos que os tornavam numa sugeira só.
Pedra não existia, porque o nosso município
não apresentava nem uma dimunuta jazida de basalto
ou similar, sendo que as mais próximas estavam no
Uruguai, no cerro de São Miguel ou em Jaguarão
e Capão do Leão, no outro lado da Mirim.
Pedroso foi contratado para começar a pavimentação
que teve início em volta da praça gal. Andréa,
como já foi comentado em crônica anterior,
mas o quê mais marcou seu trabalho, foi o momento
que, em frente ao clube Comercial, entre Mirapalhete e Deodoro
foram instalados meios-fios convencionados com material
vindo de Pelotas e daí, as calçadas passaram
a obedecer seus traçados. Deve-se lembrar que a pista
de rolamento das ruas continuaram a ser de areia ou de barro,
somente naquele local citado, é que Enéas
Pedroso trabalhou para colocar estrutura mais sólida,
como uma tênue camada de balastro. Em 1952 a faixa
de cimento, vinda do porto, passou pela Barão do
Rio Branco e em 53 começou o calçamento, desde
a rua principal até a Prefeitura Municipal.
Ligado por laços familiares com Pedroso, veio para
cá, em fins de 30, seu concunhado Miguel Lopes, mais
conhecido por “Enterrado Vivo”, grande boêmio
e que se instalou com um restaurante, sua especialidade
e um bar, onde foi, por muito tempo, a casa de jogos conhecida
pelo nome de seu proprietário Emiro Bacigalupi. Como
atração, estavam os doces feitos por sua esposa
e as reuniões dos notívagos, dedicados aos
cantos e as bebidas.
Mas, por que foi chamado o sr. Miguel Lopes de “enterrado
vivo”? A razão foi de que ele fazia um número
circense, primeiro, num circo que se instalou onde é
hoje a residência da sra. Alba Silva de Marco, nos
primórdios de sua estada entre nós e depois
de 44 – 45, no parque Oriente, onde hoje é
o lugar conhecido pela esquina do Selo e que consistia num
buraco fundo no solo e ele colocado dentro, era fechado
com areia, deixando-lhe apenas uma pequena entrada de ar
e lá, com seu violão, passava horas a fio,
cantando suas músicas preferidas que eram as modinhas.
Não se alimentava, no entanto, matava a sede com
alguma bebida que era do seu agrado.
Estes dois homens atuaram na nossa comunidade dentro daquilo
que sabiam fazer, Pedroso, como calceteiro e depois, viveu
atrás de um balcão de bar, fato que muito
lhe agradava, enquanto mantinha sua família, já
o “enterrado vivo”, viu a vida passar de uma
maneira folgozã, em seu restaurante boêmio,
reduto da gente da noite e de amigos que granjeou para sempre.
Pelo tempo que viveram em nossa cidade ajudaram a enriquecê-la
a sua maneira, dando-nos exemplos mais variados de cidadania
e deixando por aqui, descendentes que ajudam hoje, a desenvolver
a história de 150 anos.
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Família
de Enéas Pedroso por ocasião
da comemoração dos 15 anos do
neto Remis Estol (foto do acervo da família
e de propriedade da filha Lara) |
Miguel
Lopes, o "enterrado vivo", junto
com suas sobrinhas, filhas de Enéas
Pedroso (da coleção de Iara
Pedroso) |
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Trecho da rua Barão
do Rio Branco nas imediações do Clube
Comercial, vendo-se as calçadas enquadradas
pelos "meios-fios" (da coleção
do autor) |
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